quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Decálogo do Escritor





Primeiro.
Quando tiveres algo para dizer, dize-o; quando não, também. Escreve sempre.
Segundo.
Nunca escrevas para teus contemporâneos, nem muito menos, como fazem tantos, para teus antepassados. Faze-o para a posteridade, na qual sem dúvida serás famoso, pois é bem sabido que a posteridade sempre faz justiça.
Terceiro.
Em nenhuma circunstância esqueças o célebre dictum: "Na literatura não há nada escrito".
Quarto.
O que puderes dizer com cem palavras, dize-o com cem palavras; o que com uma, com uma. Nunca empregues o termo médio; assim, jamais escrevas nada com cinquenta palavras.
Quinto.
Embora não o pareça, escrever é uma arte; ser escritor é ser um artista, como o artista do trapézio, ou o lutador por antonomásia, que é aquele que luta com a linguagem; para esta luta exercita-te de dia e de noite.
Sexto.
Aproveita todas as desvantagens, como a insônia, a prisão, ou a pobreza; a primeira fez a Baudelaire, a segunda a Pellico e a terceira a todos teus amigos escritores; evita, pois, dormir como Homero, a vida tranquila de um Byron, ou ganhar tanto como Bloy.
Sétimo.
Não persigas o sucesso. O sucesso acabou com Cervantes, tão bom novelista até Quixote. Embora o sucesso seja sempre inevitável, procura um bom fracasso de vez em quando para que teus amigos se entristeçam.
Oitavo.
Forma um público inteligente, que se consegue mais entre os ricos e os poderosos. Desta maneira não te faltarão nem a compreensão, nem o estímulo, que emana destas duas fontes.
Nono.
Crê em ti, mas não tanto; duvida de ti, mas não tanto. Quando sentires dúvida, crê; quando creres, duvida. Nisto se apoia a única verdadeira sabedoria que pode acompanhar um escritor.
Décimo.
Trata de dizer as coisas de maneira que o leitor sinta sempre que no fundo é tanto ou mais inteligente que tu. De vez em quando procura que o seja efetivamente; mas para conseguir isso terás que ser mais inteligente que ele.
Décimo primeiro.
Não esqueças os sentimentos dos leitores. No geral é o melhor que têm; não como tu, que careces deles, pois de outro modo não intentarias meter-te neste ofício.
Décimo segundo.
Outra vez o leitor. Tanto melhor escrevas, mais leitores terás; enquanto lhes dês obras cada vez mais refinadas, um número cada vez maior desejará tuas criações; se escreves coisas desordenadamente aos montes, nunca serás popular e ninguém tratará de te tocar o paletó na rua, nem te apontará o dedo no supermercado.
O autor dá a opção ao escritor de descartar dois destes enunciados, e ficar com os dez restantes.
N. B.: Traduzido por Helton Cenci do original em castelhano de Augusto Monterroso.


















quarta-feira, 19 de agosto de 2015

NAS CORDAS DO VIOLÃO


 
Fiz meu rancho na montanha
Bem na beira do riacho
Onde a beleza é tamanha
E a chuva inventa barganha
E ganha do sol espaço

E quando chega a noitinha
O banquinho e o violão
Juntam-se à alma minha
Quando a voz se faz madrinha
No timbre de uma canção

Na desinência de grau
Da viola mais o ão
Do erudito ao jirau
Sob estrelas faz sarau
Magistrado violão

O ébano que te apraz
Tem a força da paixão
Na escala em que o belo jaz
No compasso pertinaz
Faz tremer o coração

E lá na beira da mata
Num viver sem ilusão
Meu fado rola em cascata
A lua atarraxa a prata
Nas cordas do violão


(Elair Cabral)

Mãos